sexta-feira, 22 de agosto de 2008

à espera dos portugas em madrid

para seguir a onda dos relatos de férias, as minhas estão no seu apogeu: encontro-me em madrid na já afamada calle de sta. engracia, quer dizer, lá à beira, fazendo tempo até chegar o casal (na)morador: aifos e ocix (escritos assim parecem nomes de uns gueis gregos)

acabadinho de chegar de iquitos(amazónia)-lima-caracas-paris, e amanhã ainda gostava de tentar porto e depois braga. não sei como, a bagagem chegou a madrid quase intacta, ao contrário do sucedido na viagem de ida, em que a minha mochila ficou retida na venezuela pelas brigadas anti-droga do hugo chavez e eu tive que sobreviver no inverno de lima com uma mísera mantinha roubada à air france, que bem mereceu a má onda. são memo necas, estes joes... é no regresso que um gajo vem com os carregamentos ilícitos (depois distrubuo pela malta).

logo depois, descida ao sul: deserto de nasca. por diversão, pedi no guiché da rodoviária: "era um pa'nasca", mas ninguém me compreendia


grande curte, apesar de a anna a vomitar a viagem toda numa avionete mais apertadinha que um mini dentro da qual sobrevoamos as gigantes e misteriosas figuras ou geoglifos de nasca, deixadas há dois milénios por uma cultura pré-inca. na foto, os mais observadores poderão distinguir uma aranha um pouco mais à esquerda e acima do centro. mede cerca de 50 metros de comprimento, sendo das mais pequenas.

à noite, um comediante de rua mete-me no seu show dessa noite. grande combi, cheio de panascadas, que o que o povão gosta é de picante. é pena é serem pobres, caso contrário o artista teria ganhado uma pasta valente.


dia seguinte, ida ao deserto de Ica em carrinho especial de areia cujo nome anglófono se recusa a entrar no meu léxico pessoal. mega dunas, tipo montanhas, que se desciam em sandboard, desporto radicalíssimo e orgásmico que me proporcionou uns trambolhoes espalhafatosos cheios de areia na boca, mas que no final do tour já me deixava curtir a cena a altas velocidades.



passagem ainda pelas ilhas ballestras, chamadas os galápagos dos pobres. montes de piupius de espécies o mais diverso possível, de todas as formas, tamanhos e cores. uma beleza natural. e com pinguins, leões marinhos, condores, golfinhos e um peruano que vivia na ilha a tempo inteiro, sozinho a dedicar-se à masturbação profissional e a guardar a merda dos pássaros, verdadeiro tesouro que já originou guerras internacionais na região devido à sua importância e valor como fertilizante para a agricultura.



de tarde, visitamos o parque por terra, num velho coiso que eles chamavam autocarro mas que nós rapidamente transformariamos em atracção de museu. bonitas vistas nuns penhascos sobre o mar entalados entre o deserto e o mar. ao longe via-se um cabo com umas casitas: o restaurante onde almoçaríamos. apeteceu-me correr e lá fui eu, atravessando uma praia no caminho onde vinham morrer os leões marinhos. no meio de cadáveres em diversas fases de decomposição e do respectivo pivete, trouxe uma mandíbula com as presas bem conservadas e mal-cheirosas para oferecer à anna. comemos principescamente, eu ceviche, o prato mais típico do perú: peixe fresco crú marinado em lima, picantes e especiarias, cebola e servido com molhos à escolha. meu deus, quanto comi, disso e do creme de marisco mais poderoso e substancial de sempre.

lima-iquitos. primeira impressão ao chegar ao aeroporto: calor-humidade-extrema-sufoco. não é demasiado desconfortável. na cidade rodeada por mato, riquexós e motas por toda a parte, caos, parece a índia, deve ser porque está tudo cheio de índios. são atléticos, robustos. compreendo porque foi tão fácil aos portugueses terem que colonizar parte do brasil em estreita colaboração com as indias. há parcerias que estão votadas ao sucesso. adiante. o psicólogo austríaco que trabalha com o xamã com quem vamos estar parece-me louco. até aqui tudo como de costume. mete-nos no barco pelo amazonas, uma hora e pico até tamshiacu, a vilazinha a partir da qual nos meteremos na selva.
a gente é muito simpática, mas na vila sinto-me um colonialista. está tudo preparado de forma a que nós, os europeus, não tenhamos que fazer nada duro. os índios gostam de fazê-lo porque recebem uns trocados por isso. pus-me a observar estas coisas, as minhas mochilonas a serem carregadas por crianças todas contentes, etc. é fazer ser-se colonialista. depois de observar um pouco, tentei ao longo dos dias ir saindo desse papel. foi difícil, niinguém queria, a ordem que funcionava ali ficava baralhada.

chegada a Yushintaita, acampamento mas com construções enormes e de dois andares em madeira, paradisíaco. riacho para dar uns mergulhos, redes de embalar por toda a parte, selva e ruídos desconhecidos a toda a volta. vamos ficar pelo menos 10 dias.

primeiro dia, 7 da manhã, primeira medicina: oje, leite de látex. objectivo: purga. por cima e por baixo, algumas horas no riacho, nús e de rabo metido na água, evacuando compulsivamente em
ambos os sentidos. os pudores foram com a purga.
acerca das cerimónias de ayahuasca, o grande motivo da nossa viagem, abstenho-me de falar. ainda não se pode dizer nada.
outras medicinas compreenderam a bebida de mapacho, tabaco fortíssimo, de vómito imediato. um líquido que se mete pelo nariz e que parece que queima tudo até aos neurónios, um banho de infusão de várias ervas odorosas, uma hora metidos dentro da terra apenas com a cabeça de fora, etc etc.
a verdade é que me sinto bem (agora que voltei).

animais observados? uma víbora, um crocodilo bébé, pássaros e insectos de todo o tipo, ouvimos algo muito próximo que parecia ser um jaguar, cobrinhas e lagartos, e mosquitos, mosquitos a toda a hora, nas suas horas de expediente obrigando toda a gente a refugiar-se dentro das camas com mosquiteiro. impossível parar dentro da selva, há que estar sempre em movimento. e mesmo assim a cara vem lá de dentro como uma pizza. dizem que só passado um ano o corpo se habitua às picadas e a reacção quase desaparece. é suficiente para saber que eu não quero viver aqui.

o regresso foi atribulado, últimas compras, fazer as malas, muitas viagens. o perú é um país forte em pelo menos três coisas, natureza, arqueologia e artesanato, e viemos com as mochilas cheias depois de termos oferecido algumas roupas.

o país tem uma linha vertical de deserto junto à costa (entre 50 e 100/150 km), outra faixa de montanha, os Andes, que tem uma largura maior (entre 100 a 300/400 km, ultrapassando os 6000m de altura) e depois para dentro é a bacia amazónica, que ocupa metade do país. uma diversidade de climas, paisagens, culturas, influências, absolutamente fascinante. não vimos quase nada, mas intuímos.

este relato foi começado perto da bonnie and clyde bracarenses agora a viver em madrid, mas acabado em plena bracara augusta. sabe bem voltar! queijobinhos, alguém anda por perto?

1 comentário:

José Alves disse...

Seu Grande Saltinbanco das Americas! Muito me alegra ver o teu relato, depois de um silencio quase spulcral como se estivesses estado só com a cabeça à tona... Qual Uma Turman ou duas Black mambas!
Grande malha, pelo continente fora! Olé!
Eu venho responder ao teu repto do encontro bracarense... Até quando estás no arcebispado nortenho?